Monthly Archives: August 2015

A hora da estrela, Clarice Lispector

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  • Início: 13/07/2015
  • Fim: 14/07/2015
  • Tempo de leitura: 02 dias
  • Diários de leitura: 29 e 30

Lembram que eu comentei que não consegui entender nada da leitura de A hora da estrela em 2009? Pois bem, na segunda tentativa acho que a coisa não foi tão ruim. Bom, depois de A paixão segundo G.H. acho que qualquer coisa teria sido mais fácil. A hora da estrela me fez fazer as pazes com Clarice.

O enredo, conhecido de muitos, é simples: Macabéa, retirante nordestina, vem para o Rio de Janeiro para tentar a sorte. Ou não, já que ela não tem muita consciência de sua própria vida. Vive apenas. Macabéa tem um emprego – é datilógrafa – do qual não sabe muita coisa, mora em uma casa com mais três mulheres com as quais não tem relação alguma, arranja um namorado com o qual não tem um relacionamento. Macabéa não sabe conversar, não sabe pensar, mal sabe sentir. Perde o namorado que nunca teve para a colega de trabalho e acaba indo parar em uma cartomante. A cartomante lhe enche de esperança: esperança de passar a ser alguém. Mas quis o destino, o narrador, a vida, que as coisas não fossem bem assim.

O enredo pode ser simples, a relação entre Macabéa e seu criador, o narrador do romance, Rodrigo S.M, não é. As observações do narrador, sua relação de amor e ódio com o objeto da narrativa, suas reflexões sobre o ato de escrever, o tipo de história a ser escrita, a força da personagem que precisa ter sua história contada, tudo isso faz parte da conversa entre Rodrigo e o leitor. E, para mim, é aí que está a força do livro.

Gostei da conversa com Rodrigo, gostei de entrar na vida não vivida de Macabéa, gostei de sentir uma pontada de esperança com ela, mesmo já sabendo como a coisa toda ia acabar. Emfim, gostei de ter dado uma segunda chance ao livro.

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Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe.

As coisas estavam de algum modo tão boas que poderia se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.

Existir não é lógico.

Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo – porque essa bebida que tem cola é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar-se e pisar na hora presente.

Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo que é novo assusta.

E quando acaricio a cabeça de meu cão – sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.

O menino do dedo verde, Maurice Druon

Ano passado li um livro muito fofo: O menino do dedo verde, do Maurice Druon. Se o livro fosse uma pessoa, eu teria apertado as bochechas dele até não poder mais.

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A história é a seguinte (como sempre spoilers à vista):

Tistu é um menino muito esperto, que mora na cidade de Mirapólvora, em uma mansão chamada “casa que brilha”, com o Sr. Papai (dono de uma fábrica de canhões), a Dona Mamãe e seus empregados.

Quando Tistu está com oito anos, seus pais decidem mandá-lo para escola, mas a coisa não dá muito certo: Tistu dormia durante as aulas e acabou sendo expulso da escola. Assim, seus pais decidem que irão educá-lo em casa e arranjam alguns tutores para ele: Bigode, o jardineiro, que lhe ensina a arte de cultivar as flores, e o Sr. Trovões, que lhe apresenta os males do mundo: a violência, a infelicidade e a tristeza. Enquanto Bigode lhe fala da beleza das flores, o Sr. Trovões o leva para conhecer o presídio, a favela, o hospital e, por fim, a fábrica de canhões do Sr. Papai. Mas, eis que no meio dessa história toda, Tistu descobre que tem um dom excepcional: o polegar verde, que lhe dá a capacidade de transformar sementes adormecidas – que estão em toda parte – em flores. É assim que ele muda a vida no presídio, na favela – que de tantas flores vira atração turística e transforma a vida dos moradores e no hospital, onde uma triste menina doente costumava contar buraquinhos no teto para passar o tempo e agora pode contar as flores que nascem em seu quarto e alegram seu dia.

Em uma de suas aulas, Tistu fica sabendo sobre a guerra entre os Voulás e os Vaitimborás, uma guerra sem propósitos e que não faz sentido nenhum para o menino (como não fazem todas as guerras). Tistu descobre também que a fábrica do Sr. Papai é quem fornece os canhões que alimentam a guerra.

Decidido a mudar essa história, Tistu passa seu polegar verde em todos os canhões da fábrica, que passam a atirar apenas flores, e a guerra fracassa.

O Sr. Papai fica muito chateado e sem saber o que aconteceu. Tistu, que não é de mentir nem se esconder, conta a verdade ao Sr. Papai e prova suas habilidades fazendo nascer uma flor bem na frente do pai.

A decepção dá lugar a uma nova ideia e a fábrica de canhões vira uma fábrica de flores! Tistu muda assim a vida de toda a cidade, que passa a se chamar Miraflores.

Sei que já contei muito mais do que deveria, mas não vou contar o final do livro – até porque, para mim, ele deveria ter acabado aqui 😦

E para concluir o post enrolação – ou mais ou menos isso – de hoje, vou deixar com vocês as citações mais fofas do livro.

“Isto prova simplesmente que as idéias pré-fabricadas são idéias mal fabricadas, e que as pessoas grandes não sabem mesmo o nosso nome, como também não sabem, por mais que o pretendam, de onde foi que viemos, por que estamos aqui e o que devemos fazer neste mundo. Esta observação é muito importante e requer ainda algumas explicações. Se só viemos ao mundo para ser um dia gente grande, logo as idéias pré-fabricadas se alojam facilmente em nossa cabeça, à medida que ela aumenta. Essas idéias, pré-fabricadas há muito tempo, estão todas nos livros. Por isso, se a gente se aplica à leitura ou escuta com atenção os que leram muito, consegue ser bem depressa pessoa importante, igual a todas as outras. É bom notar que há idéias pré-fabricadas a respeito de qualquer coisa, o que é bastante prático, permitindo-nos passar facilmente de uma para outra. Mas, quando a gente veio à terra com determinada missão, quando fomos encarregados de executar certa tarefa, as coisas já não são tão fáceis. As idéias pré-fabricadas, que os outros manejam tão bem, recusam-se a ficar em nossa cabeça: entram por um ouvido e saem pelo outro, e vão quebrar-se no chão.”

“Porque as pessoas grandes, sobretudo de nariz grande, rugas na testa e cabelo no ouvido, estão sempre beijando as criancinhas de face macia e rosada. Eles dizem que as crianças gostam, e isto é outra das ideias que inventaram. Porque são eles, os grandes, que gostam, e as crianças de face macia e rosada são muito boazinhas em prestar-se a isso.”

“Quanto às contas, serviam-se de andorinhas pousadas nos fios dos postes. Tistu aprendera não somente a somar e a subtrair, mas chegava mesmo a dividir, digamos, sete andorinhas por dois fios… o que dava três andorinhas e meia para cada fio. Como essa meia andorinha poderia equilibrar-se num fio, eis um problema que todos os cálculos do mundo jamais poderão explicar!”

“A preocupação é uma ideia triste que nos comprime a cabeça ao despertar e permanece ali o dia todo. A preocupação se serve de qualquer meio para penetrar nos quartos; ela se insinua como o vento no meio das folhas, monta a cavalo na voz dos pássaros, desliza pelos fios da campainha.”

“— Meu filho — disse enfim, após madura reflexão — ocorre com você uma coisa extraordinária, surpreendente! Você tem polegar verde…
— Verde! — exclamou Tistu muito espantado. — Acho que é cor-de-rosa, e até que está bem sujo! Verde coisa alguma!
Olhou seu polegar, muito normal.
— É claro, é claro que você não pode ver — replicou Bigode. — O polegar verde é invisível. A coisa de passa por dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde.
— E para que serve isto de polegar verde?
— Ah! é uma qualidade maravilhosa — respondeu o jardineiro. — Um verdadeiro dom do céu! Você sabe: há sementes por toda parte. Não só no chão, mas nos telhados das casas, no parapeito das janelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos muros. Milhares e milhares de sementes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um jardim ou para um campo. Muitas vezes elas morrem entre duas pedras, sem ter podido transformar-se em flor. Mas, se um polegar verde encosta numa, esteja onde estiver, a flor brota no mesmo instante. Aliás, a prova está aí, diante de você! Seu polegar encontrou na terra sementes de begônia, e olhe o resultado! Que inveja que eu tenho! Como seria bom para mim, jardineiro de profissão, um polegar verde como o seu!”

“Uma idéia que se instala em uma cabeça em breve se torna uma resolução. E uma resolução só nos deixa em paz quando a pomos em prática.”

“As pessoas grandes têm a mania de querer, a qualquer preço explicar o inexplicável. Ficam irritadas com tudo que as surpreende. E logo que acontece no mundo algo novo, obstinam-se em querer provar que essa coisa nova se parece com outra que já conheciam há muito tempo. Se um vulcão se extingue calmamente como um cigarro, eis logo uma dúzia de sábios com lunetas debruçando na cratera, escutando, cheirando, descendo por meio de cordas, esfolando os joelhos, enchendo os tubos de ar, fazendo gráficos, discutindo, em vez de constatar simplesmente: “Este vulcão parou de fumegar; deve estar de nariz entupido!”

“É preciso acontecimentos extraordinários para que se dêem férias às crianças. Uma cadeia que floresce desperta sem dúvida uma grande surpresa; mas a gente logo se habitua, e acaba achando natural que um gigantesco jardim se eleve em lugar de muros cinzentos. A gente se habitua a tudo, mesmo às coisas mais estranhas.”

“Vocês pensam talvez que as pessoas grandes já começassem a desconfiar de alguma coisa, fazendo este raciocínio tão simples: “É sempre nos lugares em que Tistu passou na véspera que as flores misteriosas aparecem. Logo, deve ser Tistu. Vamos vigiá-lo!” Mas vocês pensam isso porque sabem que Tistu tinha polegar verde. As pessoas grandes, como já disse, têm ideias preestabelecidas e nunca imaginam que possa existir outra coisa além daquilo que já sabem. De vez em quando surge um cavalheiro que revela um pedaço do desconhecido. Começam por lhe rir na cara. Algumas vezes levam-no para a cadeia, porque ele perturba a ordem do Sr. Trovões. Mais tarde, quando descobrem que tinha razão e já está morto, erguem-lhe uma estátua. É o que se chama um gênio.”

“As histórias nunca param onde a gente imagina. Vocês pensavam talvez que tudo já estivesse dito, e que já conhecessem Tistu muito bem. Pois fiquem sabendo que nunca conhecemos ninguém completamente. Nossos melhores amigos reservam sempre surpresas.”

É agora… ou nunca, Marian Keyes

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  • Início: 01/07/2015
  • Fim: 13/07/2015
  • Tempo de leitura: 13 dias
  • Diários de leitura: 17, 18, 21, 24, 25, 26, 28 e 29

O primeiro livro que li da Marian Keyes foi Casório. Não lembro nada da história, lembro apenas que não gostei. Achei chato e previsível. Tão chato que, contrariando meus instintos acumuladores de livros, mandei ele embora em uma das “faxinas na estante”.

Mas, como comentei no primeiro diário de leitura do livro, uma amiga muito querida (oi Valzinha!) me emprestou É agora… ou nunca e resolvi dar uma nova chance à autora. No fim foi bom que fiz isso porque achei o livro muito bom 🙂

#spoileralert

O livro conta a história de três amigos, Katherine, Tara e Fintam, todos com seus “trinta e poucos anos” e vivendo seus dilemas amorosos. Na verdade, Tara e Katherine estão vivendo seus dilemas amorosos. Fintam, bem resolvido no amor, tem algo mais sério a enfrentar: o câncer.

Katherine é mais certinha dos três, não se envolve fácil com ninguém e mora em um apartamento perfeitamente limpo e organizado. Tara é a mulher que não consegue viver sem ter alguém, vive em constante luta com a balança e gasta muito mais do que deveria. No início, Fintam é o amigo homossexual bem resolvido das duas. Depois, passa a ser o amigo homossexual com câncer rabugento das duas. Ou seja, achei que ele não ganhou muita importância no livro, parecia que estava lá apenas para ficar doente e provocar a mudança na vida das amigas.

E como ele fez isso? Exigindo – e usando a possibilidade de sua morte para chantageá-las – que as duas tomassem atitudes drásticas em suas vidas amorosas: Katherine deveria convidar um colega de trabalho que a estava paquerando para sair, Tara deveria largar seu namorado traste que só fazia tratá-la mal. O que acontece na sequência fica para quem resolver o livro…

Desde o começo achei a Katherine meio chata e me identifiquei muito com a Tara. A relação dela com a comida é simplesmente hilária – mas só faz sentido para quem já passou por algo parecido. Em uma das cenas, ela come um pacote de pão de fatia no café da manhã, só quem já teve esse impulso de “devorar até as paredes” sabe como é. Ri muito com as loucuras dela e com as conversas com os colegas de trabalho, principalmente o Ravi. Fiquei muito indignada com as atitudes do Thomas e torcendo para ela dar logo um pé na bunda dele.

O livro é um chick-lit engraçado e leve, mesmo tendo nele uma ou outra lição importante. A luta de Fintam contra o câncer e suas mudanças de humor, a indecisão de Tara em largar um relacionamento cômodo e arriscar começar de novo, a tentativa de Katherine de deixar seus traumas do passado e buscar a felicidade com alguém… Sofremos e amadurecemos com os personagens e o final nos dá a esperança de que “tudo vai ficar bem”.

A paixão segundo G.H., Clarice Lispector

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  • Início: 25/06/2015
  • Fim: 07/07/2015
  • Tempo de leitura: 13 dias
  • Diários de leitura: 11, 13, 15, 17, 18 e 23

Pensei um tanto nesses últimos dias sobre o que escrever sobre esse livro. Não consegui chegar à conclusão alguma.

Para começar, pensei em dizer que não posso dizer nada porque não entendi nada. Mas dizer que não entendi nada é um pouco exagerado.

Depois pensei que poderia dizer algo bonito e profundo como ‘esse livro mudou a minha vida e a minha percepção de mundo’, mas estaria sendo igualmente exagerada.

No fim, acho que entendi algumas coisas, mas não entendi todas.

A história é contada pela própria protagonista, no dia seguinte ao acontecimento que mudou sua vida. Antes de contar o que aconteceu, no entanto, ela deixa claro que sua vida jamais voltará a ser a mesma; o que ela viveu foi intenso demais para ignorar e importante demais para esquecer.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão.

Pois bem, vamos à história, ou o que eu entendi dela: uma mulher de classe alta, que acaba de perder a empregada, decide fazer uma faxina para organizar a casa e os pensamentos. Resolve começar por aquele que imagina ser o local mais bagunçado da casa: o quarto da empregada. Chegando lá, é surpreendida de várias formas: o quarto está limpo, ensolarado e com desenhos feitos com carvão na parede. As reflexões da personagem começam por aqui:

O apartamento me reflete. É no último andar, o que é considerado uma elegância. Pessoas de meu ambiente procuram morar na chamada “cobertura”. É bem mais que uma elegância. É um verdadeiro prazer: de lá domina-se uma cidade.
Não ter naquele dia nenhuma empregada iria me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação verdadeira. Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo. Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe a que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar.
Começaria talvez por arrumar pelo fim do apartamento: o quarto da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos, papéis de embrulho e barbantes inúteis. Eu o deixaria limpo e pronto para a nova empregada. […] Esperara encontrar escuridões, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. Não contara é que aquela empregada, sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira, e numa ousadia de proprietária o tivesse espoliado de sua função de depósito.

Ela decide, então, jogar água no quarto todo para banir a identidade da empregada de lá. Resolve começar pelo guarda-roupa e quase morre de susto ao abri-lo: de lá de dentro, sai uma barata. A presença da barata traz novas reflexões:

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

Em um ímpeto de nojo e desespero para sair do quarto, ela fecha a porta do guarda-roupa, esmagando a pobre da barata. A barata não morre de imediato, gosma branca começa a escorrer de seu casco partido. Ela olha para a barata e enxerga o outro. A princípio, um ‘outro’ que não é o ‘eu’. Depois, um ‘outro’ que faz parte do ‘eu’. A partir daí, novas reflexões:

Sem nenhum pudor, comovida com minha entrega ao que é o mal, sem nenhum pudor, comovida, grata, pela primeira vez eu estava sendo a desconhecida que eu era – só que desconhecer-me não me impediria mais, a verdade já me ultrapassara: levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei a porta sobre o corpo meio emergido da barata. Ao mesmo tempo eu também havia fechado os olhos. E assim permaneci, toda trêmula. Que fizera eu?
Já então eu talvez soubesse que não me referia ao que eu fizera à barata mas sim a: que fizera eu de mim?
Era isso era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda.
É que eu não estava mais me vendo, estava era vendo.
Foi assim que fui dando os primeiros passos no nada. Meus primeiros passos hesitantes em direção à vida, e abandonando a minha vida. O pé pisou no ar, e entrei no paraíso ou no inferno: no núcleo.
Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.
Sei que se eu abandonar o que foi uma vida toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso – em prol dessa coisa mais ampla que é estar vivo – abandonar tudo isso dói como separar-se de um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.
Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca pára de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já.

A maior parte do livro para mim pareceu doidera. Eu lia e relia para tentar entender alguma coisa e nem sempre conseguia. De vez em quando, alguma coisa fazia sentido na minha cabeça.

Não posso dizer que a leitura de A paixão segundo G.H. mudou a minha vida. Mas dizer que algumas passagens me fizeram refletir, isso é possível 🙂

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Dia de festa

Hoje é dia de festa aqui em casa: aniversário da nossa integrante canina da família. Há cinco anos nascia Jujuba, a cadelinha mais fofa e endiabrada do mundo.

Jujuba veio para somar a uma família de dois que estava dando seus primeiros passos. Ela foi nossa primeira experiência de paternidade e maternidade e acho que nos saímos bem. Bom, pelo menos ela chegou até aqui, rs.

Ela é a filha canina folgada que toma conta da cama dos pais. Ela é a irmã canina folgada que rouba a comida do irmão. Ela é a nossa parceira de cochilos longos e caminhadas curtas. Ela é a parceira de “janela” do Otávio.

Nossa família não seria completa sem a Jujuba. Por isso, nada mais justo que comemorar muito esse dia. São cinco anos de uma vida mais doce, mais bagunçada, mais feliz.

Parabéns Jujubita pelos seus cinco aninhos de vida!!!

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