A paixão segundo G.H., Clarice Lispector

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  • Início: 25/06/2015
  • Fim: 07/07/2015
  • Tempo de leitura: 13 dias
  • Diários de leitura: 11, 13, 15, 17, 18 e 23

Pensei um tanto nesses últimos dias sobre o que escrever sobre esse livro. Não consegui chegar à conclusão alguma.

Para começar, pensei em dizer que não posso dizer nada porque não entendi nada. Mas dizer que não entendi nada é um pouco exagerado.

Depois pensei que poderia dizer algo bonito e profundo como ‘esse livro mudou a minha vida e a minha percepção de mundo’, mas estaria sendo igualmente exagerada.

No fim, acho que entendi algumas coisas, mas não entendi todas.

A história é contada pela própria protagonista, no dia seguinte ao acontecimento que mudou sua vida. Antes de contar o que aconteceu, no entanto, ela deixa claro que sua vida jamais voltará a ser a mesma; o que ela viveu foi intenso demais para ignorar e importante demais para esquecer.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão.

Pois bem, vamos à história, ou o que eu entendi dela: uma mulher de classe alta, que acaba de perder a empregada, decide fazer uma faxina para organizar a casa e os pensamentos. Resolve começar por aquele que imagina ser o local mais bagunçado da casa: o quarto da empregada. Chegando lá, é surpreendida de várias formas: o quarto está limpo, ensolarado e com desenhos feitos com carvão na parede. As reflexões da personagem começam por aqui:

O apartamento me reflete. É no último andar, o que é considerado uma elegância. Pessoas de meu ambiente procuram morar na chamada “cobertura”. É bem mais que uma elegância. É um verdadeiro prazer: de lá domina-se uma cidade.
Não ter naquele dia nenhuma empregada iria me dar o tipo de atividade que eu queria: o de arrumar. Sempre gostei de arrumar. Suponho que esta seja a minha única vocação verdadeira. Ordenando as coisas, eu crio e entendo ao mesmo tempo. Mas tendo aos poucos, por meio de dinheiro razoavelmente bem investido, enriquecido o suficiente, isso impediu-me de usar essa minha vocação: não pertencesse eu por dinheiro e por cultura à classe a que pertenço, e teria normalmente tido o emprego de arrumadeira numa grande casa de ricos, onde há muito o que arrumar.
Começaria talvez por arrumar pelo fim do apartamento: o quarto da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos, papéis de embrulho e barbantes inúteis. Eu o deixaria limpo e pronto para a nova empregada. […] Esperara encontrar escuridões, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. Não contara é que aquela empregada, sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira, e numa ousadia de proprietária o tivesse espoliado de sua função de depósito.

Ela decide, então, jogar água no quarto todo para banir a identidade da empregada de lá. Resolve começar pelo guarda-roupa e quase morre de susto ao abri-lo: de lá de dentro, sai uma barata. A presença da barata traz novas reflexões:

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

Em um ímpeto de nojo e desespero para sair do quarto, ela fecha a porta do guarda-roupa, esmagando a pobre da barata. A barata não morre de imediato, gosma branca começa a escorrer de seu casco partido. Ela olha para a barata e enxerga o outro. A princípio, um ‘outro’ que não é o ‘eu’. Depois, um ‘outro’ que faz parte do ‘eu’. A partir daí, novas reflexões:

Sem nenhum pudor, comovida com minha entrega ao que é o mal, sem nenhum pudor, comovida, grata, pela primeira vez eu estava sendo a desconhecida que eu era – só que desconhecer-me não me impediria mais, a verdade já me ultrapassara: levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei a porta sobre o corpo meio emergido da barata. Ao mesmo tempo eu também havia fechado os olhos. E assim permaneci, toda trêmula. Que fizera eu?
Já então eu talvez soubesse que não me referia ao que eu fizera à barata mas sim a: que fizera eu de mim?
Era isso era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda.
É que eu não estava mais me vendo, estava era vendo.
Foi assim que fui dando os primeiros passos no nada. Meus primeiros passos hesitantes em direção à vida, e abandonando a minha vida. O pé pisou no ar, e entrei no paraíso ou no inferno: no núcleo.
Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.
Sei que se eu abandonar o que foi uma vida toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso – em prol dessa coisa mais ampla que é estar vivo – abandonar tudo isso dói como separar-se de um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.
Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca pára de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já.

A maior parte do livro para mim pareceu doidera. Eu lia e relia para tentar entender alguma coisa e nem sempre conseguia. De vez em quando, alguma coisa fazia sentido na minha cabeça.

Não posso dizer que a leitura de A paixão segundo G.H. mudou a minha vida. Mas dizer que algumas passagens me fizeram refletir, isso é possível 🙂

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One thought on “A paixão segundo G.H., Clarice Lispector

  1. Felipe August 9, 2015 at 4:49 pm Reply

    Nossa só o pouco que eu li no post já deu pra ter certeza que ela escreveu isso chapada, e para tentar entender algo sem estar no mesmo nível de alucinação é bem difícil!

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