A elegância do ouriço, Muriel Barbery

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  • Início: 23/10/2015
  • Fim: 02/11/2015
  • Tempo de leitura: 11 dias
  • Diários de leitura: 131, 138, 139, 140 e 141.

Livro sensacional que jamais teria lido se não fosse pelo empréstimo da Jane, colega de trabalho e de leituras.

A história nos é contada por duas narradoras, a concierge Renée e a adolescente Paloma. Mas as palavras concierge e adolescente em nada definem nossas protagonistas. As duas transbordam inteligência e sensibilidade, que ambas tentam camuflar, cada uma com suas razões.

Renée assume como imagem externa o que acredita ser o estereótipo da concierge: alguém sem dotes físicos ou intelectuais que possam se destacar. Esconde sua paixão por bons livros, boa música e boa arte de todos os moradores do prédio em que trabalha, enquanto trata-os com condescendência e um toque de superioridade que não consegue evitar.

Paloma assume o papel da adolescente rebelde sem causa, que não quer participar de nenhum tipo de evento familiar apenas porque é de sua rebeldia, não porque considera inútil conviver com pessoas vazias de inteligência, como vê os membros de sua família.

O destino das duas se cruza de forma efetiva quando um novo morador, o japonês Kakuro Ozu, aparece em suas vidas. Também dono de uma personalidade sensível, Kakuro é o único que enxerga de verdade as duas protagonistas. Enxerga quem elas são, não quem elas querem que os outros enxerguem. E através dele, uma passa a enxergar a outra.

Renée, a princípio, resiste ao contato mais íntimo e revelador de sua personalidade, mas a força do desejo de ser vista, que nem ela sabia que tinha, acaba vencendo suas barreiras. Paloma não tem as mesmas razões para resistir, mas uma mudança também se opera em sua vida e suas resoluções a partir desse triângulo amistoso.

A elegância do ouriço é um daqueles livros que conversa com a gente e nos faz abrir os olhos para detalhes que fazem a diferença. Eu, sem dúvida, recomendo a leitura.

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“Como sempre, sou salva pela incapacidade dos seres humanos de acreditar naquilo que explode as molduras de seus pequenos hábitos mentais.”

“As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não era mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável – sem falar que, pelo menos, seríamos poupados de um traumatismo, o do aquário.”

“Acho que só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realizá-la o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal. Só assim é que teremos a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte nos pegar. A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras. Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas; mas nós também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois morrer.”

“A vida já está traçada e é triste de chorar: ninguém parece ter pensado no fato de que, se a existência é absurda, ser brilhantemente bem-sucedido tem tanto valor quanto fracassar. É apenas mais confortável. E mais: acho que a lucidez torna o sucesso amargo, ao passo que a mediocridade espera sempre alguma coisa.”

“Por que é que dói tanto quando o movimento não é sincronizado? Não é muito difícil adivinhar: todas essas coisas que passam, que deixamos de ter por um triz e que são perdidas para eternidade… Todas essas palavras que deveríamos ter dito, esses gestos que deveríamos ter feito, esses kairós fulgurantes que um dia seguiram, que não soubemos aproveitar e se afundaram para sempre no nada… O fracasso por um triz…”

“Mas entendi muito bem que vida passa num tempinho a à-toa, olhando para os adultos ao meu redor, tão apressados, tão estressados por causa do prazo de vencimento, tão ávidos de agora para não pensarem no amanhã… Mas, se tememos o amanhã, é porque não sabemos construir o presente e, quando não sabemos construir o presente, contamos que amanhã saberemos e nos ferramos, porque amanhã acaba sempre por se tornar hoje, não é mesmo?”

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