03/11

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Tudo começou oficialmente há oito anos, no estádio Couto Pereira. Fui convidada para assistir um jogo de futebol e aceitei. Depois do jogo, fui pedida em namoro, aceitei de novo.

Três anos se passaram e recebi um novo convite, desta vez para um jantar romântico. Aceitei. No fim do jantar, um pedido de casamento. Eu, que não sou boba nem nada, aceitei mais uma vez.

Há três anos foi a vez da festa de casamento. Uma festa muito planejada e esperada. Amigos e família presentes, um dia para ficar na memória.

Hoje retomamos a ideia do jantar romântico.

Oito anos desde aquele primeiro 03/11, cinco desde o segundo, três desde o terceiro. E muitos ainda pela frente.

A Ana Paula e o Felipe que saem para jantar hoje não são mais os mesmos do estádio de futebol ou do jantar romântico de 2010. Na verdade, não são nem mesmo os mesmos do casamento de 2012.

Começamos não muito longe da adolescência (eu um pouco mais longe que ele), continuamos rumo à velhice juntos.

Ao longo dos últimos oito anos aprendemos a ouvir o outro, a respeitar as diferenças, a amar as particularidades, mesmo as mais irritantes, de cada um. Rimos juntos, viajamos juntos, aprendemos juntos. Construímos uma família linda e cheia de amor que só tende a crescer.

Olhando para trás vejo como chegamos longe. E melhor, olhando para frente sei que temos ainda um longo caminho a percorrer juntos.

Te amo. Ontem, hoje e sempre.

Feliz Aniversário para nós 🙂

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Aventuras – e desventuras – na cozinha. O caso do pão de queijo

Resolvi criar uma nova série aqui no blog e compartilhar com vocês minhas ‘aventuras – e desventuras – na cozinha”. A ideia não é assim tão nova, um dos projetos do blog no início de 2013 foi a série “desafio culinário”, que teve apenas dois episódios (ambos bem-sucedidos): as panquecas da Marilda e o bolo de milho da mãe da Karla.

Pois bem, vamos ao episódio de hoje: o caso do pão de queijo.

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Quem me conhece sabe que não sou lá muito talentosa na cozinha. Também não sou mais nenhum desastre, dou conta dos almoços diários e de um bolo ou outro de vez em quando. Aprendi a cozinhar depois de casada, tendo o Felipe como professor (sim, minha gente, o marido domina a arte da culinária). Não cheguei ainda muito longe, mas acho que tenho potencial (ou não).

Pois bem, resolvi hoje tentar uma receita básica para todo mundo menos para mim: pão de queijo. Não é segredo para ninguém que eu amo pão de queijo e que, se pudesse, ele seria um item elementar da minha dieta. Também não é segredo que o filho compartilha comigo dessa paixão. Portanto, nada melhor que aprender a fazer pães de queijo deliciosos para o café da manhã da casa, certo?

Os ingredientes já estavam comprados há alguns dias e hoje, domingo véspera de feriado, acordei com a inspiração para tentar uma receita. E, na falta de uma receita caseira, recorri à internet.

A coisa não começou mal: fervi a água com o óleo e o sal, joguei no polvilho doce, misturei, esperei esfriar um pouco – mas não muito, misturei os ovos. Mudei de vasilha porque escolhi uma pequena demais e misturei o queijo ralado. Mexi a massa por algum tempo, talvez tempo demais, já que havia esquecido de untar a forma e tive que pedir socorro para o marido. Fiz as bolinhas, coloquei nas formas (foram 35 bolinhas, duas formas) e colocamos (plural porque o marido ajudou) no forno: 35 minutos, 200º.

35 minutos depois e as bolinhas não pareciam douradas o suficiente. Aumentamos o forno e deixamos mais uns 20 minutos. Resultado: pães de queijo lindos…

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e duros 😦

A segunda fornada ficou um pouco melhor: não aumentamos o fogo e deixamos o tempo recomendado apenas, apesar da cara “pálida” dos pães de queijo. Eles não ficaram feios, nem ruins, mas não ficaram os melhores pães de queijo do mundo como eu esperava, rs.

Pois é minha gente, o primeiro caso da nova série não é um caso de sucesso. E, para falar a verdade, não tenho certeza se vou tentar o pão de queijo de novo. Sim, sou apaixonada por eles e sim, gostaria de pães de queijo fresquinhos no café da manhã. Mas o trabalho de fazer está meio alto considerando a facilidade de comprar…

Receita do dia: pão de queijo

  • Nível de dificuldade: fácil
  • Nível de dificuldade para mim: quase impossível
  • Resultado: meia-boca

Bom, por hoje é só pessoal!

Ah, aceito dicas e conselhos de quem tem mais tempo – e talento – na cozinha!

Eu, robô, Isaac Asimov

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  • Início:26/07/2015
  • Fim: 31/07/2015
  • Tempo de leitura: 05 dias
  • Diários de leitura: 42, 43, 44, 45, 46 e 47

Antes de começar, se você acha que sabe alguma coisa sobre o livro porque assistiu ao filme do Will Smith, assim como eu achava, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Temos aqui uma coincidência de nomes de personagens, mas a coisa não vai muito além disso.

O livro é uma coletânea de contos escritos por Asimov e publicados em periódicos de ficção científica nas décadas de 1940 e 1950. A organização cronológica dos contos traz uma visão do desenvolvimento da robótica ao longo dos anos. Dessa forma, no primeiro conto temos um robô doméstico (uma babá) que não pode sequer falar. No último, temos máquinas que controlam as decisões econômicas mais importantes para o funcionamento da sociedade. No meio, temos o desenvolvimento dos robôs, a aquisição da fala, dos movimentos mais apurados, da inteligência.

Pensei, no início, em fazer algo parecido com o post sobre A Bela e a Fera e comentar cada um dos contos, mas já desisti. Isso por que alguns deles achei meio chatos e outros eu simplesmente não entendi (e vamos admitir a “burrice” sem medo de ser feliz, rs). Vou comentar, portanto, apenas os meus preferidos 🙂

Gostei do primeiro conto, Robbie (o robô babá), pela relação dele com a menininha. O conto me lembrou bastante a primeira parte de O homem bicentenário. Na minha cabeça, o filme do conto (sim, eu sempre tenho um filme na cabeça quando leio) tinha Robin Williams e Hallie Kate Eisenberg como protagonistas.

Gostei também do conto Razão, no qual o robô Cutie questiona a sua origem, uma vez que considera impossível a criação de seres superiores – os robôs – por seres inferiores – os seres humanos. O questionamento feito por Cutie nos serve também de questionamento para os humanos…

[…] “nenhum ser pode criar outro ser superior a si mesmo” […]

“O Mestre criou os humanos primeiro como uma espécie inferior, feitos do modo mais fácil. Aos poucos, ele os trocou por robôs, a seguinte e mais elaborada etapa, e enfim me criou para ocupar o lugas dos últimos humanos.”

Por fim, o terceiro dos meus favoritos é o conto Mentiroso!. O conto nos apresenta a Herbie, um robô que consegue ler pensamentos e que acaba provocando uma boa confusão ao mentir para os humanos. Mas, eis que as mentiras contadas têm seu fundamento nas três leis da robótica em uma sacada sensacional.

Opa, isso me faz lembrar de mais uma coisa que livro e filme tem em comum: as três leis da robótica. As três leis da robótica são o fundamento da atuação dos robôs, são elas que nos permitem entender o comportamento dos robôs e, em mais de um conto, são elas que explicam o “desvio” de comportamento de determinado robô.

Por fim, o livro vale também pelo relacionamento da dupla Mike Donovan e Gregory Powell: dos diálogos entre os dois tiramos algumas importantes reflexões e as melhores piadas :-p

Shopaholic to the stars, Sophie Kinsella

Demorei a começar este post porque estava em dúvida se deveria fazê-lo ou não. E estava em dúvida porque esse é o sétimo livro de uma série que eu li inteira, mas comentei apenas o primeiro volume. Quem me conhece sabe que sou um tanto quando metódica e que, por essa razão, falar do último volume sem falar dos demais não é assim tão simples.

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Pensei em fazer um super post com todos os livros, mas minha memória não é assim tão boa e não guardei muitas informações sobre eles. Depois de muito pensar (e sofrer, porque meu TOC me faz sofrer, rs) resolvi fazer o post sobre o Shopaholic to the starts de uma vez – antes que eu perca as informações de leitura dele também – e reler os volumes anteriores da série para poder comentar todos eles bonitinhos no futuro. O primeiro volume já tem post no blog (clique aqui para ler), portanto, a maratona de leitura para posts vai começar no segundo volume. Aguardem os próximos capítulos dessa história 🙂

Mas, voltando à vaca fria…

Shopaholic to the stars, Sophie Kinsella

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  • Início: 14/07/2015
  • Fim: 24/07/2015
  • Tempo de leitura: 11 dias
  • Diários de leitura: 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 38 e 40

Dessa vez nossa protagonista atrapalhada está em um lugar que poderia ser considerado o paraíso para ela: Hollywood, morada das mais badaladas estrelas de cinema. A razão de estarem (ela, o marido e a filha) por lá é simples: Luke está trabalhando como relações públicas de uma dessas estrelas, a atriz Sage Seymour. Estrela essa que Becky ainda não encontrou pessoalmente. Agora, pergunta: porque Luke, sabendo o quanto seria importante para a esposa conhecer Sage, não apresentou as duas? Só porque ela provavelmente se comportaria como uma tiete maluca? Bom, eu na verdade acho que isso depõe contra o Luke, assim como várias outras ocasiões nas quais ele não dá valor para o que Becky considera importante. Fútil ou não, o comportamento de Becky faz parte de quem ela é, e disso ele já sabia desde o primeiro volume, certo? 🙂

Como sempre, as ideias malucas e armações de Becky a colocam em situações problemáticas das quais ela consegue se sair bem mais por sorte que por qualquer outra coisa. Um tanto quando autocentrada, ela não percebe os problemas que seu comportamento pode trazer para o marido, deixa a desejar na amizade com Suze e perde a chance de ajudar o pai.

Não que a Suze seja de todo vítima nessa história, já que ela passa por cima da amiga quando vira “extra” em filmes e depois acaba se aproximando da arqui-inimiga de Becky com a “desculpa” de que precisava desabafar com alguém.

Duas coisas que não gostei muito: (1) depois de sete volumes era de se esperar que Becky tivesse amadurecido pelo menos um pouquinho, mas não, ela continua a mesma Becky do primeiro volume. (2) O livro não acaba. Como comentei no diário de leitura #40, “ele não acaba com um possível gancho para uma continuação como os outros livros da série. Ele simplesmente não acaba! Nada se resolve ou responde…”. Fiquei consideravelmente irritada com isso (humpf). Agora, é claro, estou esperando ansiosa o lançamento do próximo volume para ver ler como a coisa toda vai acabar.

Outras coisas que gostei: como sempre, o forte é a comédia. Os primeiros capítulos do livro – Becky comprando as roupas e acessórios para participar de uma corrida de rua, sua chance de conhecer Sage Seymour, e depois as cenas dela durante a corrida – são hilários. As confusões em que ela e Suze se metem nos estúdios de Hollywood também rendem boas risadas. Esse último volume deu um pouco mais de destaque a outros personagens (Suze e Luke principalmente) o que eu achei bem legal, o foco não estava apenas nas loucuras de Becky, mas em seu relacionamento com o marido e a melhor amiga.

“Husbands should think the best of their wives, as a matter of principle.”

“Husbands should not memorize conversations, word for word. It’s against the whole spirit of marriage.”

“I mean, here we are in LA. The home of celebrities. They’re the local natural phenomenon. Everyone knows you come to LA to see the celebrities, like you go to Sri Lanka to see the elephants.”

Filha da Maria

O pai e o filho saem logo cedo para ir ao mercado. Durante o período em que eles ficarão fora (uma hora, mais ou menos), você pode aproveitar para:

(1) Tomar um banho demorado, sem se preocupar com o horário do marido sair para o trabalho ou sem precisar repetir, a casa dois minutos ‘filho, não é para abrir os sabonetes’ ou ‘não pode colocar o absorvente na porta do box’. Pode, inclusive, passar aquele condicionador milagroso de três minutos e ficar, de fato, três minutos completos com ele no cabelo (mas com a água desligada para economizar a água do mundo e a sua luz);

(2) Aproveitar para ler alguns capítulos de Morte na praia, ou quem sabe, até mesmo terminar a leitura;

(3) Passar os diários de leitura da semana (anotados em papel ou no celular) para o blog;

(4) Assistir um episódio inteiro de algo que você jamais assistiria com seu filho por perto (Criminal Minds, por exemplo).

Bom, eu poderia escolher qualquer uma das alternativas anteriores, mas como boa filha da dona Maria Edite, o que eu fiz foi:

(1) Arrumar as camas, abrir as cortinas e as janelas para arejar a casa;

(2) Recolher as roupas e sapatos espalhados pela casa, dobrar tudo e colocar em seus devidos lugares;

(3) Separar a roupa para lavar e colocar a primeira leva na máquina;

(4) Juntar e guardar os brinquedos largados no chão. Ou melhor, juntar, tentar guardar, perceber que a estante de brinquedos está meio bagunçada, tirar tudo do lugar e guardar de novo, dessa vez colocando “cada coisa eu seu lugar”.

(5) Lavar a louça que está na pia;

(6) Limpar o “banheiro” da Jujuba.

Pois bem, pelo menos sobrou tempo para um banho não tão demorado, mas mais tranqüilo que o normal e com direito a condicionador milagroso.

Alta Fidelidade, Nick Hornby

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  • Início: 15/07/2015
  • Fim: 22/07/2015
  • Tempo de leitura: 08 dias
  • Diários de leitura: 31, 33, 36 e 37.

Gente, socorro! Deixei passar muito tempo da leitura e agora estou lutando com a memória, rs.

Lembro pouco dos detalhes, mas em linhas gerais a coisa é mais ou menos assim: Rob, 30 e poucos anos, dono de uma loja de discos e de uma imaturidade mestra, acaba de levar um fora da namorada Laura. Enquanto curte a fossa, resolve fazer uma lista dos cinco piores foras levados por ele. Laura não está entre as cinco.

A primeira parte do livro contém as narrativas dos cinco foras, a maioria deles levados ainda na adolescência. Bom, eu fui adolescente, mas não fui um menino adolescente. Entrar na cabeça de um homem adulto descrevendo seus dilemas adolescentes foi interessante. Reflexões bobas e um pouco machistas, mas que deixam transparecer mais sobre o personagem que nos conta a história.

Na segunda parte nos deparamos com o presente: o Rob que acaba de levar o fora da namorada e está sem entender muito bem o que aconteceu. O cara é um babaca e ele mesmo não esconde isso de ninguém. Está preocupado em voltar com a Laura, mas está também preocupado em dormir com a Marie. Em outros momentos não quer mais a Laura, mas também não quer que ela queira mais ninguém. Sente que sua vida  – profissional e pessoal – está estagnada, mas não parece muito disposto a fazer algo para mudar. Sabe que dentro dos padrões da sociedade, está muito “atrasado” para a idade: não tem uma vida financeira estável, um relacionamento adulto, filhos…

Em um determinado momento, Rob começa a repensar sua vida e decide ir atrás das namoradas dos cinco foras para saber o que faz dele um fracasso quando se trata de relacionamentos. Com um senso de humor autodepreciativo, a narrativa nos revela a busca de Rob por um significado na vida.

Não vou contar aqui detalhes dessa busca, mas vou contar (olha o spoiler) que ela acaba levando a algum lugar. Rob, apesar dos pesares, acaba amadurecendo e se tornando menos infantilizado ao final do livro. Não perde sua essência, mas demonstra que é capaz de viver como um adulto boa parte do tempo (embora não o tempo todo).

Dei algumas risadas com o livro, fiquei com muita raiva do Rob em alguns momentos e passei o livro todo sem simpatizar com a Laura. Entendi a função dela no livro e na vida de Rob, mas achei ela uma chata de galochas.

Depois de terminar o livro, fui correndo assistir ao filme. Não achei o filme ruim, mas também não achei muito bom. Recomendo, portanto, apenas a leitura 🙂

“O que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Estes discos todos transformaram você numa pessoa melancólica? As pessoas se preocupam com o fato das crianças brincarem com armas e dos adolescentes assistirem a vídeos violentos; temos medo de que assimilem um certo tipo de culto à violência . Ninguém se preocupa com o fato das crianças ouvirem milhares – literalmente milhares – de canções sobre amores perdidos e rejeição e dor e infelicidade e perda.”

Feliz Aniversário

Hoje é um dia pra lá de especial. É dia de comemorar meu aniversário como mãe, o aniversário do Felipe como pai, o aniversário dos meus pais e meus sogros como avós, o aniversário da minha irmã e da minha cunhada como tias. Ou seja, dia de comemorar o aniversário da pessoinha especial que nos tornou tudo isso.

Há dois anos minha vida mudou para sempre. Sim, é uma frase piegas e batida, mas é a mais pura verdade. Há dois anos meu coração bate fora do peito. Eu sofro a cada tombo, a cada tosse, a cada febre. Eu vibro de felicidade a cada novo aprendizado: primeiros passos, primeiras palavras, primeiras descobertas. Eu amo todos os dias de um jeito que parece que vai fazer explodir o peito.

Feliz aniversário filho! Que você tenha uma vida repleta de felicidade e amor 🙂

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O fio da vida, Kate Atkinson

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  • Início: 28/08/2015
  • Fim: 02/09/2015
  • Tempo de leitura: 06 dias
  • Diários de leitura: 74, 75, 76, 77, 78, 79 e 80

Resolvi escrever sobre O fio da vida enquanto ele ainda está fresco na memória. Começo repetindo o que já disse no diário de leitura: o livro não me pegou logo de cara, demorou um pouco para eu chegar na fase “não quero parar de ler”.  Mas depois que cheguei, realmente não queria mais parar, rs. Bom que estar de férias ajudou e eu não precisei de muitos dias para chegar ao fim.

O enredo nos leva a acompanhar a vida da protagonista Úrsula, sua família e amigos, ao longo das quatro primeiras décadas do século XX. Úrsula nasce em uma noite de muita neve em 1910 e morre no mesmo dia. Úrsula nasce em uma noite de muita neve em 1910 e morre afogada em 1914. Úrsula nasce em uma noite de muita neve em 1910 e morre de gripe em 1918. E por aí vai… Acompanhamos os vários nascimentos da protagonista e muitas de suas mortes. A cada novo nascimento, detalhes são mudados e fazem toda a diferença. Úrsula passa por duas guerras mundiais, embora muito pequena para lembrar algo da primeira. Vive o drama da segunda guerra na Inglaterra, morre algumas vezes e depois envolve-se com salvamento de vítimas de bombardeios. Vive também o drama da guerra no lado alemão em uma de suas vidas – a vida com o final mais triste de todos (minha opinião). Tem a oportunidade de mudar o curso da história, e tenta fazê-lo. Tem a oportunidade de mudar o curso da sua vida, e o faz várias vezes.

Ao longo da história desejei a morte de Úrsula várias vezes. A vida dela vai tão mal em alguns momentos que me pegava pensando:  morre e acaba logo com isso, da próxima vez vai ser melhor. Úrsula tem várias chances de mudar as coisas. Em alguma ocasiões, um dejà vu é o que salva a sua vida – ou a vida de outros.

O livro me fez pensar um pouco também. Afinal de contas, não seria maravilhoso se pudéssemos voltar atrás e começar tudo de novo? Sem erros, só acertos? Sem desgraças, só felicidade? Mas também me fez pensar em como as nossas escolhas nos trazem todas as coisas, boas e ruins. A vida de Úrsula na Alemanha tem uma das piores versões, mas tem também uma coisa maravilhosa. Quando ela morre para começar tudo de novo, se livra de tudo de ruim que aconteceu por lá. Mas perde também a coisa boa. Se pudéssemos escolher uma versão das nossas vidas melhor em muitos aspectos, mas sem um elemento que nos é fundamental hoje, será que escolheríamos? Não sei responder, só achei interessante deixar como reflexão final do post.

Leitura aprovada e recomendada 🙂

A hora da estrela, Clarice Lispector

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  • Início: 13/07/2015
  • Fim: 14/07/2015
  • Tempo de leitura: 02 dias
  • Diários de leitura: 29 e 30

Lembram que eu comentei que não consegui entender nada da leitura de A hora da estrela em 2009? Pois bem, na segunda tentativa acho que a coisa não foi tão ruim. Bom, depois de A paixão segundo G.H. acho que qualquer coisa teria sido mais fácil. A hora da estrela me fez fazer as pazes com Clarice.

O enredo, conhecido de muitos, é simples: Macabéa, retirante nordestina, vem para o Rio de Janeiro para tentar a sorte. Ou não, já que ela não tem muita consciência de sua própria vida. Vive apenas. Macabéa tem um emprego – é datilógrafa – do qual não sabe muita coisa, mora em uma casa com mais três mulheres com as quais não tem relação alguma, arranja um namorado com o qual não tem um relacionamento. Macabéa não sabe conversar, não sabe pensar, mal sabe sentir. Perde o namorado que nunca teve para a colega de trabalho e acaba indo parar em uma cartomante. A cartomante lhe enche de esperança: esperança de passar a ser alguém. Mas quis o destino, o narrador, a vida, que as coisas não fossem bem assim.

O enredo pode ser simples, a relação entre Macabéa e seu criador, o narrador do romance, Rodrigo S.M, não é. As observações do narrador, sua relação de amor e ódio com o objeto da narrativa, suas reflexões sobre o ato de escrever, o tipo de história a ser escrita, a força da personagem que precisa ter sua história contada, tudo isso faz parte da conversa entre Rodrigo e o leitor. E, para mim, é aí que está a força do livro.

Gostei da conversa com Rodrigo, gostei de entrar na vida não vivida de Macabéa, gostei de sentir uma pontada de esperança com ela, mesmo já sabendo como a coisa toda ia acabar. Emfim, gostei de ter dado uma segunda chance ao livro.

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Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe.

As coisas estavam de algum modo tão boas que poderia se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.

Existir não é lógico.

Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo – porque essa bebida que tem cola é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar-se e pisar na hora presente.

Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo que é novo assusta.

E quando acaricio a cabeça de meu cão – sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.

O menino do dedo verde, Maurice Druon

Ano passado li um livro muito fofo: O menino do dedo verde, do Maurice Druon. Se o livro fosse uma pessoa, eu teria apertado as bochechas dele até não poder mais.

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A história é a seguinte (como sempre spoilers à vista):

Tistu é um menino muito esperto, que mora na cidade de Mirapólvora, em uma mansão chamada “casa que brilha”, com o Sr. Papai (dono de uma fábrica de canhões), a Dona Mamãe e seus empregados.

Quando Tistu está com oito anos, seus pais decidem mandá-lo para escola, mas a coisa não dá muito certo: Tistu dormia durante as aulas e acabou sendo expulso da escola. Assim, seus pais decidem que irão educá-lo em casa e arranjam alguns tutores para ele: Bigode, o jardineiro, que lhe ensina a arte de cultivar as flores, e o Sr. Trovões, que lhe apresenta os males do mundo: a violência, a infelicidade e a tristeza. Enquanto Bigode lhe fala da beleza das flores, o Sr. Trovões o leva para conhecer o presídio, a favela, o hospital e, por fim, a fábrica de canhões do Sr. Papai. Mas, eis que no meio dessa história toda, Tistu descobre que tem um dom excepcional: o polegar verde, que lhe dá a capacidade de transformar sementes adormecidas – que estão em toda parte – em flores. É assim que ele muda a vida no presídio, na favela – que de tantas flores vira atração turística e transforma a vida dos moradores e no hospital, onde uma triste menina doente costumava contar buraquinhos no teto para passar o tempo e agora pode contar as flores que nascem em seu quarto e alegram seu dia.

Em uma de suas aulas, Tistu fica sabendo sobre a guerra entre os Voulás e os Vaitimborás, uma guerra sem propósitos e que não faz sentido nenhum para o menino (como não fazem todas as guerras). Tistu descobre também que a fábrica do Sr. Papai é quem fornece os canhões que alimentam a guerra.

Decidido a mudar essa história, Tistu passa seu polegar verde em todos os canhões da fábrica, que passam a atirar apenas flores, e a guerra fracassa.

O Sr. Papai fica muito chateado e sem saber o que aconteceu. Tistu, que não é de mentir nem se esconder, conta a verdade ao Sr. Papai e prova suas habilidades fazendo nascer uma flor bem na frente do pai.

A decepção dá lugar a uma nova ideia e a fábrica de canhões vira uma fábrica de flores! Tistu muda assim a vida de toda a cidade, que passa a se chamar Miraflores.

Sei que já contei muito mais do que deveria, mas não vou contar o final do livro – até porque, para mim, ele deveria ter acabado aqui 😦

E para concluir o post enrolação – ou mais ou menos isso – de hoje, vou deixar com vocês as citações mais fofas do livro.

“Isto prova simplesmente que as idéias pré-fabricadas são idéias mal fabricadas, e que as pessoas grandes não sabem mesmo o nosso nome, como também não sabem, por mais que o pretendam, de onde foi que viemos, por que estamos aqui e o que devemos fazer neste mundo. Esta observação é muito importante e requer ainda algumas explicações. Se só viemos ao mundo para ser um dia gente grande, logo as idéias pré-fabricadas se alojam facilmente em nossa cabeça, à medida que ela aumenta. Essas idéias, pré-fabricadas há muito tempo, estão todas nos livros. Por isso, se a gente se aplica à leitura ou escuta com atenção os que leram muito, consegue ser bem depressa pessoa importante, igual a todas as outras. É bom notar que há idéias pré-fabricadas a respeito de qualquer coisa, o que é bastante prático, permitindo-nos passar facilmente de uma para outra. Mas, quando a gente veio à terra com determinada missão, quando fomos encarregados de executar certa tarefa, as coisas já não são tão fáceis. As idéias pré-fabricadas, que os outros manejam tão bem, recusam-se a ficar em nossa cabeça: entram por um ouvido e saem pelo outro, e vão quebrar-se no chão.”

“Porque as pessoas grandes, sobretudo de nariz grande, rugas na testa e cabelo no ouvido, estão sempre beijando as criancinhas de face macia e rosada. Eles dizem que as crianças gostam, e isto é outra das ideias que inventaram. Porque são eles, os grandes, que gostam, e as crianças de face macia e rosada são muito boazinhas em prestar-se a isso.”

“Quanto às contas, serviam-se de andorinhas pousadas nos fios dos postes. Tistu aprendera não somente a somar e a subtrair, mas chegava mesmo a dividir, digamos, sete andorinhas por dois fios… o que dava três andorinhas e meia para cada fio. Como essa meia andorinha poderia equilibrar-se num fio, eis um problema que todos os cálculos do mundo jamais poderão explicar!”

“A preocupação é uma ideia triste que nos comprime a cabeça ao despertar e permanece ali o dia todo. A preocupação se serve de qualquer meio para penetrar nos quartos; ela se insinua como o vento no meio das folhas, monta a cavalo na voz dos pássaros, desliza pelos fios da campainha.”

“— Meu filho — disse enfim, após madura reflexão — ocorre com você uma coisa extraordinária, surpreendente! Você tem polegar verde…
— Verde! — exclamou Tistu muito espantado. — Acho que é cor-de-rosa, e até que está bem sujo! Verde coisa alguma!
Olhou seu polegar, muito normal.
— É claro, é claro que você não pode ver — replicou Bigode. — O polegar verde é invisível. A coisa de passa por dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde.
— E para que serve isto de polegar verde?
— Ah! é uma qualidade maravilhosa — respondeu o jardineiro. — Um verdadeiro dom do céu! Você sabe: há sementes por toda parte. Não só no chão, mas nos telhados das casas, no parapeito das janelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos muros. Milhares e milhares de sementes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um jardim ou para um campo. Muitas vezes elas morrem entre duas pedras, sem ter podido transformar-se em flor. Mas, se um polegar verde encosta numa, esteja onde estiver, a flor brota no mesmo instante. Aliás, a prova está aí, diante de você! Seu polegar encontrou na terra sementes de begônia, e olhe o resultado! Que inveja que eu tenho! Como seria bom para mim, jardineiro de profissão, um polegar verde como o seu!”

“Uma idéia que se instala em uma cabeça em breve se torna uma resolução. E uma resolução só nos deixa em paz quando a pomos em prática.”

“As pessoas grandes têm a mania de querer, a qualquer preço explicar o inexplicável. Ficam irritadas com tudo que as surpreende. E logo que acontece no mundo algo novo, obstinam-se em querer provar que essa coisa nova se parece com outra que já conheciam há muito tempo. Se um vulcão se extingue calmamente como um cigarro, eis logo uma dúzia de sábios com lunetas debruçando na cratera, escutando, cheirando, descendo por meio de cordas, esfolando os joelhos, enchendo os tubos de ar, fazendo gráficos, discutindo, em vez de constatar simplesmente: “Este vulcão parou de fumegar; deve estar de nariz entupido!”

“É preciso acontecimentos extraordinários para que se dêem férias às crianças. Uma cadeia que floresce desperta sem dúvida uma grande surpresa; mas a gente logo se habitua, e acaba achando natural que um gigantesco jardim se eleve em lugar de muros cinzentos. A gente se habitua a tudo, mesmo às coisas mais estranhas.”

“Vocês pensam talvez que as pessoas grandes já começassem a desconfiar de alguma coisa, fazendo este raciocínio tão simples: “É sempre nos lugares em que Tistu passou na véspera que as flores misteriosas aparecem. Logo, deve ser Tistu. Vamos vigiá-lo!” Mas vocês pensam isso porque sabem que Tistu tinha polegar verde. As pessoas grandes, como já disse, têm ideias preestabelecidas e nunca imaginam que possa existir outra coisa além daquilo que já sabem. De vez em quando surge um cavalheiro que revela um pedaço do desconhecido. Começam por lhe rir na cara. Algumas vezes levam-no para a cadeia, porque ele perturba a ordem do Sr. Trovões. Mais tarde, quando descobrem que tinha razão e já está morto, erguem-lhe uma estátua. É o que se chama um gênio.”

“As histórias nunca param onde a gente imagina. Vocês pensavam talvez que tudo já estivesse dito, e que já conhecessem Tistu muito bem. Pois fiquem sabendo que nunca conhecemos ninguém completamente. Nossos melhores amigos reservam sempre surpresas.”