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A Bela e a Fera, Clarice Lispector

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  • Início: 15/06/2015
  • Fim: 19/06/2015
  • Tempo de leitura: 05 dias
  • Diários de leitura: 01, 02, 03, 04 e 05

Como comentei no início do diário de leitura, Clarice Lispector e eu não tínhamos um histórico muito animador.

Não sei se meus leitores “das antigas” vão lembrar, mas em um dos posts de 2009 eu comentei:

“Digam o que quiserem, ler Clarice Lispector é um porre.”

O sentimento era verdadeiro: eu tentei ler dois contos (sem chance de lembrar quais) e A hora da estrela, mas não obtive sucesso. A leitura foi concluída, mas tenho que confessar que não entendi ‘bulhufas’.

Pois bem, como vocês sabem – pelo menos quem viu a foto do livro e dos bebês de casa dormindo no facebook sabe – eu ganhei do marido, no dia dos namorados, o livro de contos A bela e a fera (ganhei também o primeiro volume de ‘O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha’, mas isso é assunto para outro post).

Ganhei no sábado de manhã, comecei a ler na segunda à noite e não parei até terminar, na sexta de manhã. Amei o livro, amei os contos, amei ler Clarice.

E o amor foi tanto que comprei A paixão segundo G.H. e Laços de Família e tirei da estante A hora da estrela. Os dois primeiros fazem parte do desafio de ‘100 livros de literatura brasileira’, o último faz parte do desafio ‘todos os livros da minha estante’. Li o primeiro dos três e não sei se meu amor por Clarice continua o mesmo, mas isso também é um assunto para outro post.

Voltando aos contos de A bela e a fera, o que tenho a dizer é: sensacional! Os contos têm aquela coisa toda que sempre ouvimos ou lemos sobre Clarice: literatura intimista, introspectiva, profundidade dos sentimentos humanos, uma narrativa que mais parece uma conversa consigo mesma. Em cada um deles pude sentir com os personagens, alegrei-me, sofri e enlouqueci com eles.

Li cada um dos contos duas vezes, gostei mais de uns que de outros, mas não desgostei de nenhum. Não sei se em 2009 eu não tinha a maturidade necessária para a leitura ou se dei azar nas escolhas (na verdade, quem escolheu os contos e o livro foi o professor, não eu), mas dessa vez a coisa foi diferente. Recomendo a leitura a quem me perguntar – e a vocês, que podem até não ter perguntado, mas chegaram até aqui na leitura do post, então algum interesse no livro (ou no que eu tenho a dizer sobre ele) devem ter, rs!

Abaixo, repito as primeiras impressões, tiradas dos diários de leitura, e deixo links (é só clicar nos títulos) para meus ‘resumos’ – na falta de uma palavra melhor – dos contos (com citações e spoilers, já adianto).

Uma história interrompida, outubro de 1940

No conto, uma mulher narra um fato de seu passado, uma história de amor interrompida por uma tragédia. A narradora conta a história não para relembrar com nostalgia, mas para tentar encontrar um sentido no que aconteceu.

Gertrudes pede um conselho, setembro de 1941

Uma adolescente confusa, um tanto quanto bipolar, escreve uma carta pedindo conselhos a uma psicóloga que tem uma coluna no jornal (?).

Obsessão, outubro de 1941

O conto mostra como uma ideia fixa pode destruir a vida de alguém. E como pela destruição esse alguém pode tornar-se o destruidor, ou talvez eu esteja divagando demais…

Delírio, julho de 1940

Um homem, escritor, internado em algum lugar, sofrendo alucinações – ou não. Mais tarde, aparentemente mais lúcido, o narrador se esforça para lembrar o que aconteceu na noite anterior, um esforço para separar o que de fato aconteceu do que foi fruto de seu delírio.

A fuga, Rio 1940

Uma mulher casada há doze anos, fugida de casa, liberta das amarras do casamento, anda sem rumo pelas ruas do Rio de Janeiro. Uma noite chuvosa, várias pessoas que ignoram sua presença, algumas que a observam imaginando tratar-se de uma louca. E a sensação de liberdade nunca antes sentida. Lendo, parece que estamos sentindo essa mudança com a personagem. E justamente por sentirmos com ela que o final nos deixa com a sensação de amargor: a falta de coragem e o retorno à vida conjugal, o marido nem mesmo ficou sabendo de suas intenções de fuga.

Mais dois bêbados, dezembro de 1941

Não fui fisgada pelo conto que tem como foco a necessidade de “diminuir” o outro, de afetá-lo para se sentir superior. A intenção de provar sua superioridade emocional é tanta que o personagem narrador faz uma descrição pesada de uma cena de morte e desespero, mas nem isso afeta seu interlocutor. Ao fim, percebemos que ele está à procura de alguém com os mesmos medos e aflições, alguém que o faça se sentir “normal”.

Um dia a menos, 1977

Uma mulher solteira, perto de seus trinta anos, que vive apenas com a empregada desde que perdeu os pais. No dia em questão, a empregada estava ausente e, sozinha, a moça pensa sobre o tédio que domina seus dias. Nada acontece por um bom tempo. O ponto alto do dia é uma ligação por engano que a moça recebe. Ela discute com a senhora ao telefone e desliga. Ao anoitecer, lembra da mãe tomando remédios para dormir. Resolve tomar “duas pilulazinhas” para “dormir um bom soninho e acordar rosada” como a mãe fazia. No fim, três vidros de pilulazinhas e mais nada…

A bela e a fera, ou a ferida grande demais, 1977

Sobre [este] conto vou escrever outra hora, fiquei com a sensação de que ele é importante demais e merece uma leitura mais profunda, o que é difícil de conseguir enquanto as ararinhas azuis de Rio 2 cantam e dançam na TV.

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